O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), alvo da operação “Cadeia Velha” e levado para depor coercitivamente pela Polícia Federal nesta terça-feira, é acusado pelos delatores de receber a propina paga sistematicamente à Casa pelos empresários ligados à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), de operar como intermediário na distribuição do dinheiro a outros parlamentares e de atuar como agente de lavagem de dinheiro.

Em delação decisiva para os investigadores, o empresário Marcelo Traça Gonçalves, ex-presidente do Setrerj e ex-vice do conselho de administração da Fetranspor, detalhou como os empresários do setor se organizaram para corromper deputados estaduais durante quase três décadas.

O doleiro Álvaro José Novis, dono da corretora Hoya, contou que intermediou, na condição de agente financeiro, a propina da Fetranspor entregue regularmente a Picciani. Já o ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Jonas Lopes de Carvalho, em depoimento dado no âmbito da Operação “Quinto do Ouro”, apresentou Picciani como intermediário da negociação de propina entre a federação e os conselheiros do TCE-RJ.

Os depoimentos dos três foram comparados com outras provas, provenientes de quebra de sigilos e de cooperação internacional. A delação de Traça envolve ainda três prefeitos fluminenses no esquema. Um deles é Carlos Busatto Júnior, o Charlinho, de Itaguai. Outro é Nelson Bornier, ex-prefeito de Nova Iguaçu, cuja residência será alvo de busca e apreensão.

As delações apontam o economista Jorge Luiz Ribeiro como o operador de Picciani. Também citam Sávio Mafra, espécie de faz-tudo de Picciani na Alerj, como a pessoa que agendava os encontros destinados a negociar a caixinha.

As provas contra Picciani são reforçadas pela delação de Benedicto Júnior, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura. De acordo com ele, em 2010 a empreiteira transferiu R$ 5 milhões, em três parcelas, para contas do presidente da Alerj no exterior. O dinheiro, segundo Benedicto Júnior, foi pedido por Picciani para reforçar o caixa de sua campanha ao Senado, em disputa que acabaria vencida por Lindbergh Faria, do PT.

Também foram considerados os relatos de outros executivos de empreiteiras, caso da Carioca Engenharia, revelado pelo GLOBO no ano passado. Um deles é do empresário Ricardo Pernambuco Júnior, diretor e acionista da Carioca, cuja delação premiada mostra que ele comprou 160 cabeças de gado da Agrobilara, empresa da família de Picciani, por R$ 3,5 milhões, entre 2012 e 2013. O valor acertado, conta o delator, estava acima dos preços de mercado, razão pela qual Picciani, de acordo com ele, devolveu R$ 1 milhão por fora e ficou com o restante.

O depoimento de Pernambuco foi o segundo que envolveu a Carioca Engenharia com a compra de gado de Picciani. Antes, também em colaboração premiada, a ex-diretora financeira da empreiteira Tânia Maria Fontenelle havia afirmado que os negócios com a Agrobilara eram parte de um esquema para “gerar dinheiro em espécie” para o caixa dois da empreiteira. De acordo com Tânia, a destinação das quantias “era ilícita, para a corrupção ou para doação eleitoral não declarada”.

Com informações d’O Globo.

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