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Países mais ricos monopolizam estudos de fósseis, mostra levantamento

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REINALDO JOSÉ LOPES
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Os países mais ricos do mundo chegaram perto de monopolizar a produção de conhecimento sobre o passado da vida na Terra nos últimos 30 anos: 97% dos dados publicados sobre fósseis no mundo durante esse período tiveram a participação de cientistas dessas nações.

A conclusão faz parte de uma análise que disseca o papel do colonialismo e das desigualdades globais na paleontologia, ramo da ciência que estuda os seres vivos extintos.

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O estudo, que acaba de sair na revista científica Nature Ecology & Evolution, mostra ainda que a maioria dos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, tem sido alvo da chamada “ciência paraquedista” nessa área.

Ou seja, pesquisadores de nações desenvolvidas frequentemente dão um jeito de usar os fósseis de países mais pobres em seus estudos sem nenhuma colaboração com os cientistas dos locais onde as preciosidades paleontológicas foram encontradas.

O levantamento sobre o tema tem como primeira autora uma cientista das ilhas Maurício, Nussaïbah Raja, que hoje trabalha na Universidade Friedrich-Alexander, na Alemanha. Também assina o estudo a paleontóloga brasileira Aline Ghilardi, do Departamento de Geologia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

A pesquisadora da UFRN conta que foi contatada por Raja e sua colega Emma Dunne, da Universidade de Birmingham (Reino Unido), porque elas passaram a acompanhar a mobilização dos paleontólogos brasileiros em favor da repatriação do dinossauro cearense Ubirajara jubatus.
O fóssil de 110 milhões de anos foi parar num museu alemão por meios quase certamente ilegais (já que a legislação brasileira considera que todos os fósseis são bens da União) e acabou sendo batizado por uma equipe inteiramente estrangeira, num caso clássico de “ciência paraquedista”.

A campanha dos cientistas brasileiros acerca do fóssil surrupiado conseguiu que o estudo sobre a espécie fosse retratado (grosso modo, “despublicado”, deixando de ser válido para a comunidade científica). Falta ainda conseguir que as autoridades alemãs devolvam o dinossauro ao Brasil.

“Nussaïbah e Emma se interessaram em saber mais sobre o caso e também queriam detalhes da minha percepção sobre colonialismo na ciência. Marcamos uma reunião e conversamos muito. Percebemos que tínhamos vários interesses e ideias em comum”, contou Ghilardi à reportagem. “Disseram que estavam reunindo dados para esse trabalho e que precisariam de ajuda para analisar tudo isso, sobretudo sob a perspectiva de outros países e regiões do mundo.”



O resultado da colaboração deixa claro que o problema tem várias camadas. De um lado, a herança do colonialismo e imperialismo europeu e norte-americano desde a era dos Descobrimentos, e em especial a partir do século 19, faz com que certos países “loteiem” entre si suas antigas colônias e zonas de influência.

Na Argélia, na Tunísia e no Marrocos, por exemplo, que foram dominados pela França até os anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, até hoje um quarto de todas as pesquisas paleontológicas são feitas por franceses.

Já a atual Tanzânia fez parte da chamada África Oriental Alemã por pouco tempo, de 1886 a 1919, mas mesmo assim paleontólogos alemães ainda são responsáveis por 17% dos estudos feitos na região nas últimas décadas.

Outros países, com jazidas fossilíferas particularmente ricas e sistemas regulatórios problemáticos, podem virar alvo de “turismo científico” generalizado ou do mercado negro de fósseis.

É o caso de Myanmar, no Sudeste Asiático, e da República Dominicana, no Caribe, por causa de suas fontes de âmbar, material que costuma preservar invertebrados com dezenas de milhões de anos.

Nesses casos, há cientistas que simplesmente compram fragmentos de âmbar na internet e descrevem espécies sem que pesquisadores do país de origem dos fósseis sequer saibam da existência deles.

Se o cenário é desolador em muitos casos, outros países em desenvolvimento têm tido sucesso em enfrentar o problema e criar uma produção de conhecimento mais equitativa na área.

“Podemos dar destaque para a China e a Argentina. Apesar de não terem conseguido coibir completamente esse tipo de prática, eles aumentaram bastante a produção doméstica de trabalhos em paleontologia, têm desenvolvido colaborações internacionais mais equitativas e isso tem reduzido as investidas paraquedistas. A Mongólia está trabalhando fortemente para isso, mas não apareceu com destaque nos nossos dados”, analisa Ghilardi.

“O Brasil também melhorou a produção de paleontologia doméstica nas últimas décadas, novos centros de pesquisa surgiram em mais regiões durante a época da expansão das universidades, mas isso não conseguiu coibir a ciência paraquedista em algumas áreas específicas, como é o caso da chapada do Araripe [no sertão do Ceará e regiões vizinhas].”



O trabalho traz ainda recomendações para minimizar as desigualdades regionais na área, como mais atenção de pesquisadores estrangeiros à legislação local e o investimento para que os fósseis achados num país possam ficar nele, beneficiando a comunidade científica e a população do lugar de origem.

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