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Invasão do Capitólio foi ‘ensaio geral’ de projeto da ultradireita sem voto nos EUA

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NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) – Um golpe fracassado é um ensaio para o próximo golpe. Esse truísmo político circula nos Estados Unidos desde 6 de janeiro do ano passado, quando a invasão ao Capitólio não consumou um golpe de Estado -o objetivo, porém, se tornou cada vez mais claro com os fatos descobertos nos últimos meses.

Se aquele ataque foi um ensaio, os movimentos políticos de 2021 sugerem que a próxima tentativa vai dispensar figuras como os bufões de lanças vistos na invasão ao Congresso. A violência não está descartada, mas terá sido precedida de metódica subversão da democracia eleitoral americana.

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Depois do 6 de janeiro, o Partido Republicano perdeu pouco tempo examinando o papel de seus membros mais radicais nos distúrbios e passou a se empenhar numa campanha de novas leis, mudanças de regras administrativas e medidas de supressão ao direito ao voto. Estado por estado, a ideia é garantir que o fracasso de Donald Trump em reverter sua derrota em estados-chave em 2020 não se repita.

As chamadas midterms (eleições de meio de mandato) deste ano, nas quais se espera que os republicanos recuperem o controle da Câmara e até consigam maioria apertada no Senado, podem ter um peso decisivo no próximo pleito presidencial, em 2024.

Quando a invasão ao Capitólio estava em curso e o mundo testemunhou perplexo a violência que visava impedir a confirmação no Congresso da vitória de Joe Biden -o último procedimento constitucional necessário para a posse-, em Nova York uma espectadora assistiu às cenas com filtros diferentes.

“Eu via os canais a cabo na minha TV e o streaming de mídia de ultradireita no telefone”, relata à reportagem Anne Nelson, historiadora e cientista política da Universidade de Columbia. Seu livro mais recente, “Shadow Network – Media, Money, and the Secret Hub of the Radical Right” (rede fantasma: mídia, dinheiro e o eixo secreto da direita radical), publicado nos EUA no final de outubro de 2019, ganhou um novo capítulo meses após ao ataque ao Capitólio.

A “rede fantasma” do título é o pouco conhecido Council for National Policy (Conselho para Política Nacional), fundado em 1981. Nelson considera o 6 de janeiro a culminação de 40 anos de uma metódica estratégia do CNP para garantir que uma minoria conservadora religiosa controle mecanismos eleitorais para capturar o poder.

Deixando de lado a figura pitoresca do “xamã do QAnon” e do trumpista que jogou um extintor em policiais -ambos condenados-, a incursão no prédio do Congresso teria sido, então, menos um arroubo orgânico de violência do que o estágio mais avançado de um plano que começou antes da eleição.

O CNP não é um movimento, explica a autora em “Shadow Network”, mas uma rede de influência operando em segredo desde que foi criada, após fazer uma aliança com o então candidato republicano Ronald Reagan. O mesmo acordo foi costurado com Trump em 2016: o empresário teria o dinheiro e a infraestrutura de campanha do CNP e, em troca, abriria as portas da Casa Branca para os evangélicos, inclusive nomeando juízes federais previamente aprovados pela liderança religiosa.

O Conselho surgiu do encontro de dois grupos de descontentes com os rumos da política e as transformações demográficas que, na década de 1970, começaram a tornar os EUA um país mais diverso e progressivamente mais liberal em costumes. O período após o fim da segregação racial nas escolas americanas, a partir da metade dos anos 1960, provocou uma reação entre sulistas que evocava os ressentimentos dos escravagistas derrotados na Guerra Civil um século antes.

Evangélicos conservadores começaram, então, a enriquecer abrindo escolas particulares apelidadas de “academias de segregação”. Mas o governo federal bloqueou benefícios fiscais para instituições que violassem a nova legislação de direitos civis, frustrando os pastores milionários.

Ao mesmo tempo, a indústria de combustíveis fósseis via seus lucros ameaçados sob a recém-criada EPA (Agência de Proteção do Meio Ambiente), na medida em que aumentavam iniciativas de controle, como a fiscalização de despejos tóxicos.

Empresários ligados à religião e aos combustíveis se uniram para combater o poder do governo federal, atraindo aliados e arregimentando estrategistas políticos e profissionais de marketing. O maior poder do CNP, explica Anne Nelson, está em cercar todo um ecossistema com mídia conservadora e mobilizar uma rede de grandes doadores para as organizações que promovem sua agenda.

Ela conta que a lista secreta dos membros só foi descoberta na década passada, e nela figuravam nomes como os dos ex-conselheiros de Trump Steve Bannon e Kellyanne Conway. Desde a fundação, sabendo que sua agenda política seria progressivamente derrotada nas urnas, o grupo elaborou um plano de ação a longo prazo.

A cientista política lembra que muitos americanos acham que sua democracia se apoia no voto popular, mas que o sistema é uma “colcha de retalhos obsoleta”. Não à toa, o CNP saiu das sombras no ano final da Presidência de Trump, quando ficou claro que seu aliado fiel poderia ser derrotado tanto no voto popular quanto no Colégio Eleitoral -instituição do século 18 que precisa certificar a eleição presidencial.

Enquanto emergiam essas preocupações, estourou a pandemia da Covid-19, e o grupo de ultradireita só via chance de reeleger Trump no final de 2020 com um calendário intenso de comícios, que serviriam para recolher dados e manter a base mobilizada.

Nelson conta que, num telefonema para a direção da campanha republicana, o CNP teria proposto interferir no combate à crise sanitária, minando a autoridade da ala do governo federal encarregada da saúde pública. Alistou médicos de ética duvidosa para vender falsos tratamentos -como a hidroxicloroquina e a perigosa ivermectina, que causou inúmeras mortes-, fez propaganda contra o isolamento social e a obrigatoriedade de vacina.

“A eleição de 2020 era estratégica para eles”, diz a autora. Entre os planos que o Conselho considerou para manter Trump no poder, o mais radical foi executado logo após o pleito: um membro fundou o grupo Stop the Steal (parem com o roubo) para reforçar a falsa tese de que democratas estavam roubando votos.
“A ideia era causar uma ruptura e pedir recontagens, como aconteceu na Geórgia. E, no final, tornar caótico o processo de certificação dos votos.” Nelson lembra que a conspiração previa que o então vice-presidente, Mike Pence, que chefiava a sessão no Congresso, usasse um suposto poder -obscuro sob a Constituição- de não confirmar a vitória de Biden.

“Esse plano fracassou”, lembra, “e nossa democracia escapou por um triz.” Nelson diz que havia membros proeminentes do CNP no comício de 6 de janeiro que antecedeu o ataque, entre eles a médica Simone Gold, propagandista de tratamentos falsos para Covid que entrou no Capitólio com os invasores.

A autora afirma ainda que o Partido Democrata nunca contou com uma organização com os tentáculos do Conselho para Política Nacional e chegou a este momento confiando mais nas aspirações da maioria que representa do que no trabalho detalhado sobre a complexa engrenagem eleitoral.

“A democracia americana depende de normas de bom comportamento, e os conservadores trumpistas não acatam mais essas normas.”

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