Em depoimento ao Ministério Público de São Paulo, ao qual o Jornal Nacional teve acesso, o engenheiro Emerson Cardoso Leite afirmou que que recebeu uma ligação de José Carlos Bumlai, amigo de Luiz Inacio Lula da Silva, solicitando que ele indicasse um profissional para execução de uma reforma em um sítio em Atibaia (SP) – frequentado posteriormente pelo ex-presidente.

O Ministério Público paulista e a Polícia Federal investigam a relação de Lula com a propriedade. O depoimento do engenheiro reforça, portanto, a ligação do pecuarista José Carlos Bumlai, preso na operação Lava Jato, com a reforma do sítio frequentado por Lula. O ex-presidente da República e sua família foram ao sítio 111 vezes nos últimos quatro anos.

O engenheiro disse que, como não mexia com reforma de casa, pediu a um outro colega de trabalho, o também engenheiro Rômulo Dinalli, para que que contratasse um arquiteto. O profissional contratado para cuidar da obra do sítio foi o arquiteto Igenes Neto. Emerson também contou que o prazo para a reforma era curto e que o pecuarista Bumlai exigia que tudo ficasse pronto até o natal. Por isso, queriam terminar a obra em 120 dias.

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Sitio em Atibaia.
O sítio em Atibaia passou por uma reforma no fim de 2011, e a suspeita dos investigadores é de que a obra tenha sido paga por duas construtoras envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobras, e pelo pecuarista José Carlos Bumlai.

Bumlai é amigo do ex-presidente Lula e, está preso no Paraná, acusado de corrupção pela operação Lava Jato.

O arquiteto Igenes Neto também prestou depoimento aos promotores paulistas. Ele declarou que não teve contato com nenhum proprietário do sítio e que não sabia quem utilizava o lugar. Ele deu a mesma informação que o engenheiro Emerson: de que “havia a exigência de entregar a obra para o natal de 2011, por isso queriam terminar em 120 dias”.

Emerson também contou no depoimento que, em determinado momento da reforma, “José Carlos Bumlai ligou agressivamente reclamando que a obra não progredia”. E que, em seguida, “Bumlai resolveu mudar a construtora que trabalhava no local”.

Emerson disse que “tem quase certeza, por conta de informações do próprio Bumlai, que quem tocaria a reforma seria a construtora OAS”.

Os promotores já têm provas de que a construtora OAS comprou em uma loja a cozinha planejada e os móveis da área de serviço do sítio em Atibaia. O Ministério Público suspeita de que outra construtora investigada pela operação Lava Jato, a Odebrecht, também tenha feito pagamentos da reforma.

Patricia Nunes, que era dona de um depósito em Atibaia, confirmou ao Jornal Nacional que um engenheiro da Odebrecht comprou material de construção para a obra no sítio.

Um motorista que trabalhava na loja de material de construção e fez serviços de carpintaria no sítio de Atibaia, disse que quem fazia os pagamentos da obra era um homem chamado Frederico.

Questionado sobre onde trabalhava Frederico, o motorista respondeu: “Comentários, comentários, né, que era da Odebrecht.  Agora se era ou não… acho que ele nunca negou pra ninguém lá da onde era. Ele, que eu saiba, que a turma comentava, que ele só fazia o pagamento. Ele só ia acertar a parte financeira.”

O motorista  também contou que cobrou R$ 800 pelo serviço e que ganhou muito mais de gorjeta. “R$ 2,4 mil, que ele me deu para eu trabalhar umas horas a mais, para terminar o serviço.”

Muita gente trabalhava na obra, de acordo com o motorista.  “Olha, muita gente, eu calculo mais de 100 pessoas que trabalhavam lá. A primeira etapa gente que eu vi que tive contato de começo não falavam a nossa língua, paraguaio, boliviano era esse tipo de gente.”

A Revista Veja desta semana traz a informação de que parte da mudança do ex-presidente Lula de Brasília para São Paulo, foi para o sítio em Atibaia. E que foram mais de 200 caixas, 37 delas, de bebidas, além de quadros e plantas.

O Instituto Lula afirmou, em nota, que parte dos objetos pessoais do ex-presidente Lula foi levada para o apartamento dele em São Bernardo e parte para o sítio Santa Bárbara, em Atibaia, com o consentimento dos proprietários, que são amigos de Lula e de sua família há décadas.  Segundo a nota, tudo foi feito de forma oficial e registrada.

O instituto também afirma que “mais uma vez a privacidade da família do ex-presidente foi violentada, na tentativa sistemática de associá-lo a processos em que ele não é investigado, nem sequer nomeado.”

Sobre o depoimento do engenheiro Emerson Cardoso Leite, o Instituto Lula disse que não se responsabiliza por boatos disseminados por alguns órgãos de imprensa. A Odebrecht informou que não conhece o inquérito a respeito da obra mencionada e, por isso, não vai se manifestar.

A defesa de Bumlai também não vai se manifestar porque não conhece o depoimento citado. A reportagem não conseguiu contato com o diretor da OAS, Paulo Gordilho, e nem com a constrututora.

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